Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Tem um dado que resume o problema antes mesmo de a gente começar: segundo a Gallup, só 22% dos trabalhadores dizem receber a quantidade adequada de reconhecimento — número que não muda desde 2022. O resto convive com um padrão incômodo: o reconhecimento quase sempre chega tarde, vem malfeito ou aparece só quando é conveniente para manter alguém produtivo.
Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

A pessoa que segura a peteca, que resolve o que não é dela, vai acumulando uma reputação informal dentro da equipe — todo mundo sabe que ela entrega. Só que esse saber raramente vira algo concreto, porque a memória da empresa é seletiva: lembra rápido de um erro e esquece com facilidade tudo que a pessoa construiu. Foi exatamente esse ponto que uma tese de doutorado defendida na Unicamp, em 2026, conseguiu nomear com precisão.

Neste artigo, você vai entender:

▪  O tamanho do problema, em números

▪  A tese que deu nome ao problema

▪  Contingencialidade e disjuntividade

▪  Os casos Evarista e Cristiano

▪  Por que isso não é pontual (e o que dizem a teoria e o mundo)

▪  Como a Tupã trata isso na prática, passo a passo

O tamanho do problema, em números

Reconhecimento costuma ser tratado como “tema de gente boa”, subjetivo demais para virar prioridade. Os números dizem o contrário — e vêm de mais de uma fonte.
Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Gráfico: Tupã Saúde, com dados da Gallup.
Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Gráfico: Tupã Saúde, com dados da Gallup (2024).

Colaboradores bem reconhecidos são 45% menos propensos a ter trocado de empresa dois anos depois, e quem recebe reconhecimento de alta qualidade é 65% menos propenso a ficar procurando emprego. Do outro lado da conta, substituir uma pessoa custa de 40% do salário (linha de frente) a 200% (liderança). Reconhecimento malfeito não é só um problema humano — é um passivo financeiro silencioso.

A tese que deu nome ao problema

O professor Ricardo Bertoni Pompeu, da FCA/Unicamp, puxou esse fio depois de ouvir, repetidas vezes, alunos relatando injustiças no trabalho. A tese, “Reconhecimento no Trabalho: Para Além da Justiça Organizacional”, parte de uma crítica direta: o jeito como a maioria das empresas entende reconhecimento é limitado — e isso desemboca em adoecimento psíquico, humilhação e apagamento da história profissional de quem trabalha. Ele cruzou a Teoria do Reconhecimento (Honneth) e a Psicodinâmica do Trabalho (Dejours) com entrevistas de 18 trabalhadores operacionais, e nomeou dois conceitos: contingencialidade e disjuntividade.

Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Contingencialidade e disjuntividade

Contingencialidade é a expectativa de que o trabalhador esteja sempre disponível e adaptável — útil enquanto entrega, descartável no minuto em que mostra que não aguenta o tranco. Disjuntividade é o apagamento do passado profissional: tudo que a pessoa construiu deixa de importar quando ela não corresponde mais à expectativa imediata. A biografia some, e a autonomia se perde junto com a reputação.

O caso Evarista.

Começou aos 19 anos como ajudante de caixa e foi assumindo funções pela dedicação. Quando surgiu uma promoção, não foi indicada — a chefia dependia dela demais para liberá-la. Daí em diante, virou cobrança e exposição pública (“você perdeu o brilho no olhar”). Dedicação virou armadilha.

O caso Cristiano.

Bateu a meta por uma viagem que veio menor do que o prometido. Na campanha seguinte, o prêmio era uma TV — que ele depois descobriu ser usada, parada havia tempo numa sala da escola. O problema não é o valor: é a mensagem simbólica sobre o quanto a empresa considera aquela pessoa.

Por que isso não é pontual (e o que dizem a teoria e o mundo)

A tese é direta: falta de reconhecimento tem raiz estrutural, na distância entre o que o RH promete e a experiência real. Para Honneth, reconhecimento é necessidade humana básica — negá-lo fere a autoestima e a identidade. Para Dejours, o trabalho só não adoece quando o esforço é reconhecido; quando não é, o sofrimento se acumula em silêncio.

E não é só no Brasil. A discussão global aparece em fenômenos como o “quiet quitting” (a desistência silenciosa de quem faz só o mínimo) e o “boreout” (o adoecimento pelo tédio e pela falta de sentido). São sintomas do mesmo vazio: gente que deixou de se sentir vista. A própria Gallup registrou que 51% dos trabalhadores americanos procuravam ativamente outro emprego em 2024 — um termômetro do desengajamento.

Conclusão

Reconhecimento não é sobre dar alguma coisa. Exige memória, escuta, autonomia, justiça e condições concretas — para que ninguém precise adoecer tentando provar, todo dia, que ainda merece estar ali.

Para ir além

Livro: “A Sociedade do Cansaço”, de Byung-Chul Han — ensaio curto e afiado sobre como a lógica do desempenho transforma a pessoa em seu próprio explorador. Diálogo direto com a contingencialidade.

Filme: “Você Não Estava Aqui” (Ken Loach) — retrato da precariedade e da perda de dignidade no trabalho por demanda — a contingencialidade em imagem.

 

Como a Tupã trata isso na prática — passo a passo

A conexão com o produto não é um “puxadinho comercial”: é o mesmo fluxo que a NR-1 exige, do diagnóstico ao monitoramento. Veja como o risco psicossocial percorre o sistema da Tupã.

Passo 1 — Identificar

O fator psicossocial entra no inventário de riscos, ao lado dos riscos físicos e químicos — com código, tipo e norma. Nada fica “solto” no clima organizacional.
Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Destaque: tudo em um só lugar, do ruído ao risco psicossocial.

 

Passo 2 — Avaliar

A avaliação usa metodologia reconhecida (como o COPSOQ), transformando percepção em dado comparável e reavaliável.

Destaque: sai do “achismo” e vira medição com método.

 

Passo 3 — Documentar no PGR

Laudos, inventário e evidências ficam na biblioteca de documentos, com status de validade e rastreabilidade — pronto para fiscalização.

Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Destaque: o que a NR-28 de 2026 passou a cobrar: evidência, não papel arquivado.

 

Passo 4 — Plano de ação

Cada risco identificado gera um plano com responsável e prazo, acompanhado em quadro (tabela, kanban ou Gantt).
Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Destaque: a ação deixa de depender de memória e passa a ter dono e data.

 

Passo 5 — Monitorar

No painel, indicadores de vidas ativas, riscos críticos, absenteísmo e afastamentos por CID mostram a exposição antes de virar afastamento ou passivo.

Reconhecimento no trabalho não é elogio. É memória, justiça e dignidade.

Destaque: o padrão aparece cedo — dá tempo de agir.

 

(No blog, esta seção ganha vida como uma gravação curta do sistema em ação — um GIF/vídeo do fluxo acima.)

Em resumo: a conexão com o sistema da Tupã

Falta de reconhecimento é um dos fatores que compõem o risco psicossocial que a NR-1 exige identificar, avaliar e controlar no PGR.

Contingencialidade e disjuntividade são o tipo de variável que uma avaliação formal (COPSOQ) capta antes de virar adoecimento, afastamento ou passivo — e a Tupã documenta isso de forma rastreável, no mesmo sistema que já cuida de PGR, PCMSO e afastamentos por CID.

 

Leia na íntegra

Reportagem no Jornal da Unicamp: jornal.unicamp.br/edicao/744/o-onus-mental-da-falta-de-reconhecimento-no-trabalho

Cobertura de O Atibaiense: site.oatibaiense.com.br/2026/07/desgaste-mental-e-resultado-da-falta-de-reconhecimento-no-trabalho

Gallup — reconhecimento e retenção: gallup.com/workplace/650174

 

Referências

Tese de Ricardo Bertoni Pompeu (FCA/Unicamp, 2026) · Jornal da Unicamp, ed. 744 · Gallup (2024) · Axel Honneth, “Luta por Reconhecimento” · Christophe Dejours, “A Loucura do Trabalho”.

 

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