Trabalhar à noite não é apenas “virar turno” ou “ter um horário diferente”: hoje, a própria OMS classifica o trabalho noturno como provavelmente carcinogênico, colocando essa exposição ao lado de carne vermelha e alguns pesticidas. Ao mesmo tempo, o impacto sobre sono, cérebro e saúde mental é profundo, cumulativo e, muitas vezes, silencioso. Neste artigo, vamos mostrar o que a ciência já sabe sobre esses riscos, por que isso não é “mimimi” nem frescura, e o que empresas realmente sérias em SST precisam começar a fazer ontem.
Neste artigo, você vai aprofundar seu entendimento sobre:
▪️Quando a noite vira risco: por que a OMS colocou o trabalho noturno na lista de prováveis carcinógenos
▪️Ritmo circadiano: o relógio biológico que o trabalho em turnos insiste em quebrar
▪️Doença reconhecida: o que é o Transtorno do Sono por Trabalho em Turnos (TSTT) e por que não é “só cansaço”
▪️O efeito dominó na saúde mental: atenção, memória, emoções e decisões sob ataque
▪️E agora? O que empresas podem (e precisam) fazer para reduzir danos do trabalho noturno
Quando a noite vira risco: por que a OMS colocou o trabalho noturno na lista de prováveis carcinógenos
Imagine uma lista em que aparecem pesticidas, carne vermelha, alguns agrotóxicos e… trabalho noturno. É exatamente aí que a OMS colocou o trabalho em turnos que atrapalham o ciclo circadiano: no Grupo 2A – provavelmente carcinogênico para humanos.
Em termos simples, isso significa: há evidência limitada em humanos, mas forte em animais, com mecanismos biológicos plausíveis para aumentar risco de câncer.
Em monografias recentes da IARC (agência de pesquisa em câncer da OMS), o trabalho noturno entrou ao lado de atividades como pintura e combate a incêndios entre as exposições ocupacionais ligadas a maior incidência de tumores. Estudos com profissionais que trabalham no período em que a maior parte da população dorme – como enfermeiras, comissárias de bordo e trabalhadores industriais – mostram aumento de risco para alguns tipos de câncer, especialmente mama, próstata e linfoma, entre outros.
Por que isso acontece?
- A exposição à luz durante a noite desregula o ritmo circadiano.
- A produção de melatonina, hormônio com ação antioxidante e protetora do DNA, é suprimida.
- Há alterações em genes ligados ao relógio biológico, inflamação e mecanismos de reparo celular.
Ou seja: não estamos falando de “exagero” ou “terrorismo”. Estamos falando de um tipo de organização de trabalho que, pela própria forma como foi construída, mexe em camadas profundas da biologia humana.
Quando a OMS coloca o trabalho noturno na mesma categoria de risco de carne vermelha e determinadas exposições profissionais, o recado é claro: isso é um problema de saúde pública, e não uma opção neutra de escala.
Ritmo circadiano: o relógio biológico que o trabalho em turnos insiste em quebrar
O corpo humano é como uma cidade que funciona em turnos rígidos: há horários planejados para “acender luzes”, limpar ruas, reparar estruturas e desligar sistemas não essenciais. Esse planejamento é feito pelo ritmo circadiano, um ciclo de cerca de 24 horas influenciado principalmente pela luz e pela escuridão.
De dia, o corpo:
- Aumenta temperatura corporal
- Eleva níveis de cortisol (para manter alerta)
- Organiza digestão e metabolismo para atividade
À noite, deveria:
- Aumentar a produção de melatonina
- Reduzir temperatura corporal
- Ativar processos de reparo celular, consolidação de memória e “faxina” neural
Quando alguém trabalha em turnos noturnos, essa lógica é invertida. A pessoa:
- Fica exposta à luz artificial e precisa permanecer alerta justamente quando o cérebro quer desligar
- Tenta dormir de dia, quando o corpo foi programado para ficar ativo
Esse desalinhamento crônico é o coração do problema. A OMS e estudos epidemiológicos deixam claro: milhões de pessoas ao redor do mundo estão, literalmente, vivendo contra o próprio relógio interno.
Com o tempo, esse conflito entre exigência do trabalho e necessidade biológica gera:
- Sono insuficiente e fragmentado
- Desorganização hormonal
- Estresse fisiológico constante
- Alterações em sistemas cardiovascular, imunológico e metabólico
E o que começa como “só um período de adaptação” vai se transformando em algo que o corpo nunca realmente aceita. Ele apenas paga a conta em silêncio, por anos.
Doença reconhecida: o que é o Transtorno do Sono por Trabalho em Turnos (TSTT) e por que não é “só cansaço”
Há uma diferença gigante entre “estar cansado” e ter um quadro que já é reconhecido como transtorno clínico.
O desalinhamento crônico entre horário de trabalho e ritmo biológico recebe um nome: Transtorno do Sono por Trabalho em Turnos (TSTT). Ele afeta sobretudo quem:
- precisa estar acordado quando o organismo tenta dormir
- tem escalas irregulares ou rotativas
- não consegue consolidar um padrão estável de sono e vigília
Estudos mostram uma prevalência elevada de TSTT – variando de 25% a quase 50% entre pessoas com horários instáveis. Não é nicho. Não é raridade. É um problema atingindo uma fatia enorme da força de trabalho.
Os sinais do TSTT incluem:
- Dificuldade persistente para dormir ou manter o sono nos horários disponíveis
- Sono que não traz sensação de descanso
- Sonolência excessiva durante o trabalho
- Queda de desempenho, lapsos de atenção, irritabilidade
E, no cotidiano, isso aparece disfarçado em frases como:
- “Eu durmo, mas acordo quebrado.”
- “Parece que a mente não desliga.”
- “Quando tenho folga, só quero dormir, mas nunca é suficiente.”
É aqui que o equívoco mais comum aparece: culpar o indivíduo – falta de disciplina, pouco cuidado com a higiene do sono, “fraqueza” – quando o verdadeiro problema está na forma como o trabalho está organizado.
O TSTT não é um defeito da pessoa.
É uma consequência de um sistema que exige do corpo algo para o qual ele não foi projetado.
O efeito dominó na saúde mental: atenção, memória, emoções e decisões sob ataque
Se o corpo é obrigado a funcionar “na contramão”, o cérebro paga caro.
Trabalhar à noite e dormir pouco (muitas vezes 5 horas por noite, quando o recomendado é de 7 a 9) mina funções cerebrais cruciais:
- Atenção e vigilância: lapsos, distrações, microcochilos
- Memória: dificuldade de consolidar informações e aprender coisas novas
- Funções executivas: planejamento, priorização, julgamento
- Regulação emocional: humor instável, irritabilidade, maior reatividade
Esse combo abre espaço para:
- Maior risco de ansiedade e depressão
- Uso de estimulantes (cafeína em excesso, energéticos, até medicações) para “aguentar”
- Uso de sedativos ou álcool para “desligar” na hora de dormir
Forma-se então um ciclo químico-afetivo-cognitivo:
- O turno noturno prejudica o sono
- O sono prejudicado altera humor e cognição
- O humor alterado aumenta o estresse e o consumo de substâncias
- O uso de substâncias piora ainda mais o sono e a saúde mental
E tudo isso acontece, muitas vezes, num ambiente que glorifica a resistência:
“Quem é bom se adapta”,
“Plantão é isso mesmo”,
“Eu me acostumei, é só questão de costume”.
O problema é que o cérebro não se acostuma com privação crônica de sono e inversão de ciclo. Ele se adapta como pode – reduzindo desempenho, aumentando vulnerabilidades, cortando qualidade de vida.
E para a empresa? Isso se traduz em:
- Mais erros operacionais
- Mais acidentes de trabalho
- Queda de produtividade
- Aumento de afastamentos por motivos físicos e mentais
Ou seja, não é só sofrimento humano. É também risco direto para o negócio.
E agora? O que empresas podem (e precisam) fazer para reduzir danos do trabalho noturno
Diante desse cenário, uma pergunta é inevitável:
se trabalho noturno é necessário em tantos setores, o que fazer?
Serviços de saúde, transporte, segurança, indústria contínua – tudo isso depende, em alguma medida, de operação 24/7. A solução, então, não é “acabar com o trabalho noturno”, mas reconhecer o risco e gerenciá-lo de forma responsável.
Alguns caminhos essenciais:
- Redesenho de escalas
- Evitar rotações caóticas de horário
- Reduzir a quantidade de noites seguidas
- Garantir intervalos mínimos adequados entre turnos para recuperação
- Gestão ativa dos riscos psicossociais
- Incluir o trabalho noturno e seus efeitos em avaliações formais de risco
- Mapear queixas de sono, fadiga, atenção, humor
- Monitorar indicadores de acidentes, erros e afastamentos associados a esses turnos
- Programas de vigilância em saúde
- Acompanhamento periódico de sono, saúde mental, parâmetros cardiovasculares e metabólicos
- Encaminhamento para avaliação especializada quando necessário
- Educação sem culpabilização
- Oferecer orientação sobre sono, uso de substâncias, organização de rotina
- Mas sempre deixando claro: o problema não é só do indivíduo, é da forma de organizar o trabalho
- Políticas claras e cultura de cuidado
- Não normalizar jornadas excessivas ou acúmulo de plantões
- Garantir que relatar fadiga, dificuldade ou adoecimento não seja visto como fraqueza
- Inserir esses temas na estratégia de SST, não como “palestra pontual”, mas como diretriz permanente
Aqui entra o papel de uma consultoria especializada como a Tupã: traduzir toda essa complexidade científica e normativa em processos, políticas e práticas concretas que protejam gente de verdade – e blindem a empresa de um passivo que, cedo ou tarde, aparece.
Conclusão
Trabalhar à noite não é só uma questão de horário
É uma exposição ocupacional que:
- mexe no relógio biológico
- aumenta risco de câncer
- abre caminho para doenças cardiovasculares, metabólicas e transtornos mentais
- compromete atenção, julgamento e segurança no trabalho
Continuar tratando isso como “apenas um jeito diferente de organizar turnos” é fechar os olhos para um risco que a própria OMS já colocou na mesa.
Se a sua empresa ainda enxerga o trabalho noturno apenas como uma necessidade operacional, sem enxergar o custo humano, clínico e jurídico que vem junto, é questão de tempo até essa conta chegar em forma de acidentes, afastamentos, processos ou perda de gente boa.
Se você quer mudar essa realidade na sua empresa, trazer o tema para o centro da gestão de SST e construir um modelo de trabalho noturno que reduza danos, proteja pessoas e respalde o negócio, chame a Tupã.
A Tupã pode te ajudar a:
- mapear riscos ligados ao trabalho em turnos
- redesenhar escalas e políticas com base em evidência
- integrar saúde física, mental e riscos psicossociais na gestão de SST
Trabalho noturno sempre vai existir.
A diferença é se ele vai continuar adoecendo em silêncio – ou se sua empresa vai escolher fazer diferente.
Fontes
[1] RTP / IARC – Trabalhadores noturnos com maior risco de ter câncer – OMS.
[2] G1 – “Os problemas de saúde causados pelo trabalho noturno”.
[3] FSP-USP – OMS publica monografia sobre risco de câncer causado pelo trabalho noturno.
[4] ANAMT – “Os problemas de saúde causados pelo trabalho noturno”.
[5] Fundacentro – “Os riscos do câncer em atividades de turno, pintura e combate ao fogo”.
[6] Instituto Oncoguia – “O que causa câncer, segundo a OMS? Lista inclui profissões, produtos, vírus e alimentos”.


