Burnout não é excesso de trabalho, é excesso de violência invisível.

O burnout é frequentemente reduzido a um problema de “trabalhar demais”, mas a realidade é muito mais complexa e perturbadora. Trata-se de um fenômeno enraizado em violências organizacionais invisíveis: assédio moral, humilhação, desqualificação, silenciamento e abuso de poder hierárquico. Os dados de 2025 revelam uma crise silenciosa no Brasil, afastamentos por transtornos mentais saltaram 134% entre 2022 e 2024, enquanto ações judiciais por burnout crescem 14,5% ao ano. Neste artigo, você vai entender como a violência psicossocial alimenta o adoecimento, por que as empresas são responsáveis por essa negligência, e como o Judiciário começa a cobrar esse preço.

Neste artigo, você vai aprofundar seu entendimento sobre:

▪️A crise silenciosa: números que revelam a magnitude do adoecimento mental no trabalho
▪️Violência invisível: os 7 fatores que alimentam burnout além do excesso de demandas
▪️ O capitalismo de vigilância e o sofrimento psíquico normalizado
▪️ Responsabilidade corporativa: por que as empresas não podem mais se omitir
▪️Justiça e reparação: como o Judiciário começa a cobrar o preço da negligência

A crise silenciosa: números que revelam a magnitude do adoecimento mental no trabalho

Os números são alarmantes e falam por si. Entre 2022 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho saltaram de 201 mil para 472 mil casos, um aumento de 134% em apenas dois anos. No estado de São Paulo, o crescimento foi de 67% em um ano, passando de 80 mil casos em 2023 para 133 mil em 2024. O tempo médio de afastamento supera 100 dias, impactando de forma sem precedentes a vida dos trabalhadores.

Mas há mais. A análise da Predictus identificou 13.515 processos trabalhistas por burnout entre 2015 e 2025, um crescimento de 311% na década. Em 2025, as ações por burnout cresceram especificamente 14,5%. E segundo dados do G1, a síndrome do burnout atinge 1 em cada 3 brasileiros com estresse no trabalho, enquanto a síndrome do estresse crônico afeta 32% dos trabalhadores brasileiros.

Esses números não representam apenas estatísticas. Representam vidas interrompidas, famílias afetadas, e um sistema de saúde pública sobrecarregado. Em alguns órgãos públicos, transtornos mentais representam até 50% dos motivos de licenças médicas. O custo humano é altíssimo, e o custo social é deslocado para o sistema público de saúde e previdência, isentando as empresas de qualquer responsabilização concreta.

Violência invisível: os 7 fatores que alimentam burnout além do excesso de demandas

O burnout não surge do nada. Ele é o resultado de uma exposição contínua a fatores de estresse no ambiente de trabalho, mas esses fatores vão muito além de “trabalhar demais”. Eles são, na verdade, formas de violência organizacional que corroem a dignidade humana.

  1. Sobrecarga crônica de trabalho: Metas agressivas e um volume de tarefas que excede a capacidade humana são o principal combustível do esgotamento. Mas não é apenas o volume, é a impossibilidade estrutural de cumprir, criando um ciclo de fracasso permanente.
  2. Falta de controle e autonomia: O microgerenciamento e a ausência de poder de decisão sobre as próprias tarefas geram um sentimento de impotência e estresse. Você é responsabilizado pelos resultados, mas não tem poder para determinar como alcançá-los. É uma violência silenciosa.
  3. Ausência de reconhecimento: Trabalhar arduamente sem o devido reconhecimento (financeiro ou feedback) destrói a motivação e é um gatilho poderoso para o burnout. Quando seu esforço é invisibilizado, você começa a questionar seu próprio valor.
  4. Ambiente de trabalho tóxico: Conflitos, assédio moral, bullying e falta de apoio da liderança criam um campo minado emocional que consome a energia mental. Essa é a violência mais explícita, mas também a mais normalizada.
  5. 5. Desequilíbrio vida-trabalho: A cultura do “sempre online” e a expectativa de disponibilidade constante dissolvem a fronteira entre vida pessoal e profissional, impedindo a recuperação mental. O trabalho invade seu lar, seu descanso, sua família.
  6. Insegurança e injustiça: Mudanças mal comunicadas, favoritismo e decisões percebidas como injustas criam um clima de medo e desconfiança, um estressor crônico. Você nunca sabe onde está pisando.
  7. Ausência de políticas claras: Uma empresa sem políticas de saúde mental e sem um Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) que contemple os riscos psicossociais está, na prática, negligenciando seu dever de cuidado. É omissão institucionalizada.

Esses sete fatores não são “desafios do trabalho moderno”. São violências. E quando você trabalha em um ambiente onde é humilhada, desqualificada ou silenciada, onde sobra hierarquia e falta humanidade, o adoecimento não é uma fraqueza pessoal. É uma resposta racional a um ambiente irracional.

O capitalismo de vigilância e o sofrimento psíquico normalizado

Na busca obsessiva por produtividade e eficiência, as empresas implementaram ferramentas cada vez mais sofisticadas de monitoramento: softwares de produtividade, rastreadores de tempo, controle de cliques, reconhecimento facial, sensores e webcams. Trata-se do que a pesquisadora Shoshana Zuboff denominou capitalismo de vigilância, um sistema onde o controle digital sobre corpos e mentes se torna central na gestão.

A presença constante desses dispositivos de controle tem sido associada a quadros de ansiedade crônica, distúrbios do sono, perda de autoestima e episódios depressivos. Mas há algo ainda mais insidioso: o sofrimento psíquico tende a ser normalizado nas organizações. De acordo com o professor Christophe Dejours, do Conservatoire National des Arts et Métiers em Paris, os trabalhadores internalizam a ideia de que o sofrimento é parte “natural” da produtividade e da vida laboral. Isso contribui para o silenciamento dos sintomas iniciais de esgotamento, ansiedade ou depressão.

O resultado é um ciclo perverso: a pressão por metas, somada à falta de espaço para expressar angústias e ao medo de punições, contribui para o silenciamento do sofrimento. O trabalhador sofre em silêncio, normalizando a dor, até que o corpo não aguenta mais. E quando finalmente adoece, é frequentemente tratado como um problema individual, não como uma falha do sistema que o adoeceu.

Responsabilidade corporativa: por que as empresas não podem mais se omitir

A atualização da NR-1 em 2024 mudou o jogo. A norma agora exige que as empresas mapeiem e gerenciem os riscos psicossociais, e — aqui está o ponto crucial — inverte, em parte, o ônus da prova. Se a empresa não mapeou esses riscos e não criou um plano de ação, sua defesa em um processo judicial por burnout se torna extremamente frágil.

Isso significa que a omissão agora tem consequências legais concretas. Empresas que não atualizam seu PGR para incluir riscos psicossociais estão, na prática, admitindo negligência. E essa negligência é usada contra elas em processos judiciais.

Mas há mais. O reconhecimento do burnout como doença ocupacional pela CID-11 deu aos laudos médicos um peso técnico indiscutível. Quando um trabalhador apresenta um laudo médico confirmando que desenvolveu burnout, ansiedade ou depressão decorrentes do ambiente de trabalho, a empresa não pode mais argumentar que se trata de um problema pessoal. É uma doença ocupacional, e a empresa tem responsabilidade por sua prevenção.

A conscientização também mudou. Os funcionários agora reconhecem os sinais de esgotamento não como uma falha pessoal, mas como uma consequência de condições de trabalho insustentáveis. Isso transformou a dinâmica de poder: trabalhadores empoderados buscam reparação, e o Judiciário começa a reconhecer seu direito a ela.

Justiça e reparação: como o Judiciário começa a cobrar o preço da negligência

O caso da advogada da Ebserh é emblemático. Vítima de assédio moral desde 2023, ela desenvolveu transtornos de ansiedade, depressão e síndrome de burnout decorrentes do ambiente de trabalho hostil. Mesmo após pedir administrativamente para ser transferida — um direito previsto na Convenção 190 da OIT — a empresa não tomou providências.

O juiz Gerfran Carneiro Moreira, da 4ª Vara do Trabalho de Manaus, reconheceu o assédio moral, determinou a transferência imediata e fixou indenização de R$111 mil pelos danos morais. Segundo o magistrado, o uso abusivo do poder hierárquico “viola a dignidade humana” e o ambiente tinha concausalidade direta no adoecimento.

Essa decisão importa porque reafirma três princípios fundamentais:

Primeiro: Saúde mental é direito trabalhista, não gentileza. Não é um “benefício” que a empresa oferece por bondade. É um direito fundamental que toda empresa deve garantir.

Segundo: Empresas que se omitem diante do adoecimento de suas trabalhadoras respondem por isso. A negligência tem preço. E esse preço é crescente, as indenizações por burnout estão aumentando conforme o Judiciário reconhece a gravidade do problema.

Terceiro: O Judiciário tem potencial e dever de cobrar esse preço. Decisões como essa estabelecem precedentes. Elas enviam uma mensagem clara: violência organizacional não é tolerada, e quem a pratica — ou permite que aconteça — será responsabilizado.

O crescimento de 14,5% nas ações por burnout em 2025 não é coincidência. É resultado direto dessa mudança de paradigma. Trabalhadores estão processando empresas. Juízes estão reconhecendo seus direitos. E empresas estão começando a entender que negligência em saúde mental é um passivo trabalhista real.

Conclusão

O burnout não é uma fraqueza pessoal. Não é resultado de “trabalhar demais”. É resultado de trabalhar em ambientes onde a violência psicossocial é normalizada, onde a dignidade humana é violada, onde o sofrimento é silenciado. Os dados de 2025 mostram uma crise em escala, 134% de aumento em afastamentos, 311% de crescimento em processos judiciais, 1 em cada 3 brasileiros afetados.

Mas esses números também mostram algo mais esperançoso: o Judiciário começa a reconhecer o que as empresas ainda negam. Saúde mental é direito. Violência organizacional tem preço. E quem se omite diante do adoecimento de seus trabalhadores será responsabilizado.

Se você quer construir uma empresa onde a saúde mental é prioridade estratégica, onde a violência psicossocial é identificada e eliminada, onde o ambiente de trabalho é humanizado e seguro, chama a Tupã. Juntos, podemos transformar sua cultura organizacional, mapear riscos psicossociais, capacitar lideranças e criar políticas que protejam seus colaboradores — e sua empresa — contra esse passivo crescente. Porque saúde mental não é custo. É investimento. E negligência é risco.

Fontes

[1] Berton Bortolotto – Ações por Burnout crescem 14,5% em 2025: Ações por Burnout: como a NR-01 põe sua empresa na mira da justiça

[2] Radar Democrático – Adoecimento mental no trabalho e capitalismo de vigilância: sofrimento invisível e solitário

[3] Predictus – Burnout nas Empresas: como prevenir e evitar riscos em 2025

[4] Care Global Partners – Burnout e burnon: como o trabalho está na raiz desses problemas?

[5] G1 Globo – Burnout não é frescura: entenda a exaustão crônica ligada ao trabalho

[6] Super Abril – A ciência do burnout: por que estamos tão cansados?

[7] Conexão Essencial – O Alicerce Invisível: Saúde Mental no Trabalho e as Diferenças entre o Brasil e os Países Desenvolvidos em 2025

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